• Gustavo Gaiarsa

Explodiram as pontes de Florença!

Calma, isso foi muitos anos atrás! Mais exatamente na noite de 3 de agosto de 1944.

Ponte Vecchio em 14 de agosto de 1944. Foto realizada pelo Capitão Tanner, do exército Inglês, parte da coleção do Imperial War Museum e em Domíniio Público.

Em 26 de abril de 1943 o ditador fascista italiano Benito Mussolini é capturado pelas forças Partisan da CLN (Comitato di Liberzione Nazionale), que defendia sua execução como a única maneira de iniciar o renascimento político e social da Itália, até então aliada da Alemanha nazista comandada por Adolf Hitler. Dois dias depois o ditador é fuzilado em uma pequena cidade nas proximidades do Lago de Como, juntamente com sua companheira Claretta Petacci e outros apoiadores do regime, e seu corpo é exposto em praça pública em Milão por algumas horas, para inflamar a multidão contra o regime.


Poucos meses depois, no dia 8 de setembro de 1943, a Itália assina um armistício com os Aliados, e na semana seguinte tropas alemãs invadem a cidade de Florença, montando seu quartel general em proximidade da Praça San Marco, de onde as forças nazistas iniciaram na cidade a perseguição aos judeus, apoiadas por soldados da SS e da Gestapo.


Apesar da ocupação alemã em Florença Gerhard Wolf, cônsul alemão da cidade desde 1940, não simpatizava com os ideais nazistas e fez o possível para defender a cidade e muitos judeus das atrocidades cometidas pelas tropas do Eixo, a ponto de mobilizar contatos na Suíça para fornecer documentos falsos a amigos, como o historiador da arte Bernard Berenson, de origem judaica, e o marquês (e posteriormente estilista) Emilio Pucci, desertor da aeronáutica italiana que havia ajudado a filha de Mussolini Edda Ciano Mussolini a chantagear o regime, ameaçando a divulgação de diários de seu marido.


Na eminência de grandes prejuízos humanos, materiais e artísticos em Florença, Wolf solicita ao embaixador alemão na Itália Rudolf Rahn sua intervenção junto ao Führer para evitar a destruição de Florença. Hitler acaba cedendo e declarando não-oficialmente, Florença como cidade aberta, ou seja, uma cidade que declara publicamente sua intenção de não se defender em caso de invasão para evitar perdas tanto materiais quanto humanas.


A declaração, entretanto, não teve grande valor, pois no momento que as tropas Aliadas comandadas pelo exército americano começaram a avançar do sul para o norte da Itália para liberar o país da ocupação nazista, foi ordenada a operação Feuerzauber (encanto de fogo), ou seja, a destruição de todas as pontes de Florença para evitar que o exército Aliado alcançasse a Linha Gótica, linha de defesa alemã ao norte dos Apeninos.


Em 31 de julho de 1944 as tropas alemãs sediadas em Florença evacuaram todos os moradores dos Lungarnos, as vias que margeiam o Rio Arno em Florença, e os levaram a abrigos provisórios como igrejas e até mesmo ao Palazzo Pitti, morada histórica dos grão-duques da Toscana (linhagem cadete da família Medici e linhagem dos Habsburgo-Lorena) e do Rei da Itália Vittorio Emanuele II di Savoia durante os anos em que Florença foi capital do Reino de Itália (1864-1870). Era o início da destruição das pontes de Florença.


Durante meses o exército nazista havia estudado a estrutura das pontes de Florença para encontrar seus pontos mais frágeis. Cargas de dinamite foram cuidadosamente posicionadas para destruir rapidamente pontes históricas, como a antiquíssima Ponte alle Grazie, a Ponte Santa Trinità e a Ponte alla Carraia. Na noite de 3 de agosto de 1944, explosões ecoaram por toda a cidade e na manhã do dia 4 de agosto, a única ponte que ainda estava inteira era a Ponte Vecchio.


Segundo a História oficial, Hitler teria ficado fascinado com a Ponte Vecchio em uma visita feita à Florença juntamente com Mussolini em 1938, teria cedido à vontade de Gerhard Wolf e dado a ordem que a ponte fosse preservada, interditando entretanto o acesso a ela através da destruição de todos os edifícios nas cabeceiras dessa ponte.


Suspeitando da benevolência de um genocida que ordenou o extermínio de milhões de pessoas, surgiu há alguns anos uma versão alternativa da história. Uma versão não-oficial, divulgada em jornais de Florença e contada por uma sobrevivente da Segunda Guerra, conta uma história um bem diferente. Segundo essa versão, um senhor já de idade, assistente de joalheiro e claudicante devido às sequelas da paralisia infantil, um tal de Burgasso, conhecido como Burgassi, teria visto o local onde os soldados alemães haviam posicionado as cargas de dinamite e desconectou os fios das cargas, salvando assim a Ponte Vecchio.


É difícil saber se a versão não-oficial tem algum fundo de verdade, mas fato é que a Ponte Vecchio, construída em 1345 sob projeto de Neri di Fioravante e Taddeo Gaddi, é desde 1944 a ponte mais antiga de Florença. Antes da destruição das pontes pelos alemães a Ponte alle Grazie, que tem esse nome porque até então haviam capelas sobre a ponte e que havia sido construída em 1227, era a mais antiga de Florença.


Em 1957, uma comissão de arquitetos convocados pela cidade de Florença decide reconstruir a Ponte Santa Trinita, ponte histórica projetada pelo escultor e arquiteto Bartolomeo Ammannati juntamente com Michelangelo sob ordens de Cosimo I de' Medici, exatamente como ela era, resgatando inclusive pedras da construção original no Rio Arno e reabrindo a pedreira que havia sido utilizada para a construção original.


Em 2007, a prefeitura de Florença homenageou o cônsul alemão Gerhard Wolf, salvador "oficial" da Ponte Vecchio com uma placa, afixada em uma parede no centro da ponte, perto do bebedouro público, eternizando-o assim como herói da cidade, tendo salvado não só de sua ponte mais famosa mas numerosas vidas humanas ameaçadas pelo atroz regime de seu comandante.


Pomodoro Tours di Pelosini Gaiarsa Gustavo P.IVA 06723760481

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