• Gustavo Gaiarsa

Savonarola e a Fogueira das Vaidades


Retrato de Girolamo Savonarola, 1498 - Fra Bartolomeo, Museu de San Marco

Girolamo Savonarola foi um padre e político italiano, muito importante para a história de Florença no final do século XV.


Nascido em Ferrara (Emília-Romanha), em 1452, era filho de um rico comerciante e de uma mulher de origens nobres. Durante sua juventude estou dou medicina, mas acabou ouvindo o chamado da fé e tornou-se noviço em 1475, diácono em 1477 e padre poucos anos depois.


Em 1482 é enviado a Florença, onde torna-se leitor no Convento Domenicano de San Marco.


Florença nessa época era a capital cultural da Itália, graças a presença de Lorenzo o Magnífico da família Medici, que era o Senhor da cidade e incentivava, através do mecenato, grandes artistas e intelectuais como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Botticelli, Luca Signorelli, Domenico Ghirlandaio, Filippino Lippi, Pietro Perugino e Andrea del Verrocchio, entre tantos outros filósofos e intelectuais.


O convento de San Marco também era intimamente ligado à história da família Medici, pois décadas antes havia sido restaurado pelo arquiteto Michelozzo a pedido de Cosimo o Velho, patriarca do ramo primário da família Medici, fundador do Banco Medici, primeiro governante Medici de Florença e avô de Lorenzo o Magnífico, que mantinha no convento uma cela utilizada nos momentos de isolamento e reflexão.


Em seu primeiro período em Florença (1482-1487), Savonarola realiza sermões na igreja de San Lorenzo (também ligada aos Medici, pois entre outras coisas fica atrás do palácio onde os mesmos viviam), mas sem atingir o sucesso que seus sermões atingiriam anos depois. Muitos estranham seu sotaque e não entendem suas palavras, e o monge é enviado a San Gimignano em 1485.


Em San Gimignano começa a elaborar seus sermões apocalípticos, chegando a dizer que "esperamos para breve um novo flagelo, um anticristo, uma praga ou a fome", citando como razões para isso os homicídios, a luxúria, a sodomia, a idolatria, as crenças na astrologia e a simonia, que afligiam a sociedade da época. Apesar de muito contundentes, seus sermões ainda não causavam escândalos, e Savonarola continua a mesma linha de sermões na igreja de Santa Verdiana em Florença em 1487.


No ano seguinte o frade volta a Ferrara, onde se estabelece no convento e Santa Maria dos Anjos e, pelos próximos 2 anos, continua a pregar seus sermões apocalípticos por diversas cidades do norte da Itália, como Brescia, Mantova, Piacenza, Modena, Gênova e Pavia até que, em 1489, Lorenzo o Magnífico, fascinado pelos sermões do padre, solicita seu retorno a Florença.


Em Florença, Savonarola continua com seus sermões no convento de San Marco, pregando a favor da renovação da igreja católica, da volta a uma igreja mais simples e franciscana, além de se posicionar ao lado dos pobres e dos simples contra a classe dominante, portanto contra a família Medici.


Em fevereiro de 1491 faz sua primeira missa em Santa Maria del Fiore, a catedral e Duomo de Florença, e na Páscoa do mesmo ano faz um sermão na frente do Palazzo Vecchio, afirmando que tanto o bem quanto o mal de uma cidade vêm de seus governantes, uma afronta aos Medici que provoca a ira de Lorenzo o Magnífico.


Lorenzo o adverte para que pare com tais sermões, e o padre responde profetizando que Lorenzo morrerá antes dele, o que realmente acontece, e em 8 de abril de 1492. O frade dá a extrema-unção a Lorenzo na Villa de Careggi, residência afastada dos Medici, que morre aos 43 anos em consequência de uma crise de gota, deixando o comando de Florença nas mãos de seu filho Pedro o Azarado. 


No mesmo ano morre o papa Inocêncio VIII e o cardeal Rodrigo Bórgia torna-se papa com o nome de Alexandre VI, um dos papas mais infames de todos os tempos. Inicialmente o papa Borgia tem o apoio de Savonarola, que o considera um reformista, mas aos poucos Alexandre V mostra sua verdadeira face e perde o apoio do frade, que começa a pregar contra o papa.


Em 1493 Savonarola consegue declarar a independência do Convento de San Marco e torna-se vigário geral da congregação toscana da ordem Domenicana.


No ano seguinte, em 1494, Pedro de Medici, o Azarado, comete uma manobra política desastrada, permitindo que o rei da França Carlos VIII passe por territórios que pertenciam a Florença no caminho para Nápoles, que Carlos VIII pretendia conquistar. A população da cidade se revolta, expulsa a família Medici da cidade, declara república e Savonarola torna-se uma espécie de chefe carismático da República de Florença.


Nessa época, a popularidade de Savonarola crescia exponencialmente junto à população da cidade, graças a seus sermões inflamados e seu posicionamento pró-republicano. Carismático, Savonarola começa a ter seguidores e defensores fiéis conhecidos como "piagnoni" (chorões), talvez o mais célebre entre eles tenha sido Botticelli, que chegou a destruir algumas de suas obras de temática pagã nas "fogueiras das vaidades" promovidas por Savonarola.


As "fogueiras das vaidades" eram grandes fogueiras que o frade promovia em praça pública, onde convidada a população a se livrar de bens de luxo, queimando na fogueiras símbolos da decadência dos costumes como perucas, espelhos, roupas luxuosas, livros e obras de arte que não tivessem cunho religioso e que levassem à degradação dos costumes. A fogueira das vaidades mais famosa foi realizada no dia 7 de fevereiro de 1497, durante o Carnaval daquele ano.


Foi também Savonarola que promoveu uma grande reforma no Palazzo Vecchio, encomendando a construção de um grande salão que deveria comportar 1500 parlamentares em 3 turnos diferentes, sala que conhecemos hoje como Salão dos 500.


Os sermões inflamados do padre contra o papa acabaram por decretar a morte do monge. Irritado com as críticas de Savonarola, o papa Alexandre VI ameaça excomungar toda a cidade de Florença. A República de Florença fica encurralada e acaba capturando Savonarola, que é enforcado e depois queimado em praça pública, em frente ao Palazzo Vecchio, no dia 23 de maio de 1498, exatamente em frente onde hoje há a Fonte de Netuno. Para que não haja um culto a sua figura suas cinzas são jogadas no rio Arno e a cidade promove um "danatio memorie", apagando sua existência dos anais citadinos.

Pintura de autor desconhecido que mostra a execução de Savonarola em frente ao Palazzo Vecchio. O original encontra-se no Museu de San Marco.

Em maio de 1997 a arquidiocese de Florença iniciou o processo de beatificação de Savonarola. Até hoje, todo dia 23 de maio é colocada uma coroa de flores em frente ao Palazzo Vecchio, no círculo que lembra o local onde Savonarola foi executado.


Lugares de Savonarola em Florença:

• Museu do Convento de San Marco, onde é possível ver as 3 celas em que o frade morou e objetos que pertenceram a ele, além do sino "Piagnoni" realizado por Donatello e que soou quando o monge foi capturado;

• Piazza della Signoria, em frente à fonte de Netuno, lugar onde Savonarola foi executado;

• Palazzo Vecchio, Salão dos 500, idealizado por Savonarola como assembléia para 1500 membros do governo.



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